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Caderno de leitura

Este blogue é sobre o que leio e o que escrevo, duas das minhas grandes paixões e companhias. Para onde vou, tenho de levar sempre um caderno, canetas e, um ou mais livros.

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Caderno de leitura

12
Jul25

"O General do Exército Morto"

Elsa Filipe

Este ano consegui ir à feira do livro e de lá trazer dois livros, um dos quais foi este que acabei agora de ler: "O General do Exército Morto", foi primeiramente publicado em França em 1970, e relata a história de um general italiano que, terminada a 2ª Guerra Mundial, é enviado à Albânia para recuperar os corpos dos soldados do exército italiano que foram deixados para trás. Esta tarefa é tão mais difícil quanto a burocracia que a acompanha. No entanto, é a desumanidade com que os sentimentos de um povo que se vê novamente invadido (desta vez, em tempo de "paz") e as entranhas das suas terras escavadasd que nos demonstra aquilo que é o absurdo do poder de um estado sobre outro. 

Na sua jornada, é acompanhado por um padre, que representa a presença da Igreja nesta tarefa, que com ele partilha a dura tarefa de vasculhar os campos em busca dos cadáveres de um exército derrotado, enquanto na sua cabeça fervilham ideias de como poderia ter esta guerra corrido de outra forma se ele tivesse tido a oportunidade de comandar aqueles homens. Durante os meses que passa na Albânia acaba também por se cruzar com um general alemão incumbido de uma tarefa semelhante. A história destes dois generais - vindos de países diferentes - vai-se cruzando ao longo da narrativa, embora possa parecer pouco explorada para o leitor mais desatento.

A cada corpo encontrado e recolhido, na paisagem geograficamente isolada e acidentada, ficamos a conhecer o desenvolvimento de uma cultura singular, que se desenvolveu num ambiente hostil. Neste romance o povo albanês é descrito como pobre, pouco evoluido (caraterizado até como arcaico), fundado em tradições ancestrais e cuja linguagem e costumes se voltam diretamente para a guerra, como se essa fosse a única forma possível de vivência. As personagens estrangeiras trazem uma perspetiva diferente à narrativa, analisando os costumes albaneses, recorrendo a diversos episódios uns mais heróicos outros de cariz mais cómico. No final, uma anciã, mostra que aquele povo não é fraco, representando em si toda a fúria, toda a revolta não diretamente contra aquele General e os que o acompanham, mas contra um dos homens mais temidos e cuja morte esteve ali diante de todos durante vários anos. 

O livro retrata a guerra naquilo que é o seu resultado mais nefasto: a dor da perda e a necessidade de regressar ao local da batalha para recuperar os corpos dos soldados, sempre sob a pressão das famílias que os aguardam. Do outro lado, há um olhar crítico pela reinvasão dos campos, das suas terras, da sua paz e normalidade. 

Descobri entretanto que este livro de Ismail Kadaré, é ainda acompanhado de outros dois que no seu conjunto relatam histórias de controlo e de repressão contra o povo em que se inserem, em contextos totalitários ou autoritários. Essas obras são: "O General do Exército Morto", "O Palácio dos Sonhos" e "A Pirâmide". 

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